Vítor Alberto Klein's Blog

08/05/2012

Investimento produtivo e fluxo de capitais

Filed under: Atualidades — vitoralbertoklein @ 16:54

terça-feira, 8 de maio de 2012

Por Ricardo Gallo

Fonte:  http://colunistas.ig.com.br/ricardogallo/2012/05/08/investimento-produtivo-e-fluxo-de-capitais/

Muita gente confunde o volume  investimento real feito na economia com o fluxo de capital externo para financiar o investimento direto feito por empresas de fora. As pessoas confundem a super oferta de grana externa  para financiar investimento com o volume de fato investido na economia. Vou simplificar um pouco para clarificar a situação, e já peço perdão aos economistas. Vou evitar considerações sobre renda e produto, para focar diretamente no amago da questão e simplificar a análise, com risco de cometer erros e ferir aos economistas.

Uma igualdade decorrente da contabilidade nacional diz o seguinte:

Investimento = Poupança interna Privada + Poupança pública + Poupança Externa.

Poupança Privada é aquela parte da renda ( Salários, aluguéis, juros recebidos, aposentadorias, bolsa família, lucros retidos por empresas, dividendos recebidos, etc) que não é gasta no consumo dos famílias. É o que sobra no fim do mês e é usado para aumentar suas aplicações financeiras ou para amortizar o saldo devedor de dívidas.

Poupança pública é o que sobra depois do governo arrecadar os impostos e pagar seus gastos correntes.

Poupança externa é o montante de capital que trazemos do exterior para financiar o déficit de conta corrente (excluindo as transferências).

O fato é : se a poupança privada não sobe pois o consumo privado não se reduz, se a poupança pública não sobe pois gastos públicos não caem, a única maneira de aumentarmos o investimento produtivo total na economia é através de aumentos da poupança externa que importamos.

A mesma contabilidade nacional define uma outra igualdade:

Poupança externa  = Importações – Exportações + Rendimentos enviados ao exterior – transferências, ou seja,  Poupança externa é igual ao saldo em transações correntes com sinal trocado, ou seja, quanto maior déficit externo maior poupança externa absorvida.

Logo, para aumentarmos nosso volume de investimentos precisamos aumentar nosso déficit externo, se não aumentarmos a poupança interna. Se quisermos aumentar a poupança interna ou aumentamos o produto ( mais tecnologia, maior crescimento da força de trabalho, mais produtividade), ou reduzimos consumo. Como nossa capacidade de crescer o produto é limitada pela escassez de mão de obra qualificada, de infraestrutura e de investimento privado, temos que financiar nossos investimentos ou com a redução do consumo ou com mais poupança externa.

O investimento total anual feito em nossa economia é da ordem de 20% do que produzimos. Aproximadamente 82% de nossa renda vai para o consumo e 18% para investimento. Logo, nossa renda não é suficiente para atender  à nossa demanda por bens de consumo e ao volume de investimento produtivo que queremos realizar. De fato poupamos internamente apenas o equivalente a 18% do que produzimos, aproximadamente. Consumimos o equivalente a 2% do PIB a mais do que poderíamos se quiséssemos  financiar os nossos investimentos somente com a poupança doméstica. Ou seja, precisamos captar dinheiro, poupança externa, equivalente a mais ou menos 2% do que produzimos, no exterior para financiar a conta, de tal forma que nosso investimento total se mantenha em a 20% do PIB. Estes 2% do PIB são o nosso déficit externo. Em 2011 tal déficit externo foi de US$ 52 bi.

Porém há um aparente paradoxo aqui. Em 2011 houve uma entrada de US$ 117 bi de investimentos estrangeiros no Brasil, sendo US$ 67 bi destes classificados como investimentos diretos nas empresas aqui. Logo, importamos uma poupança de 117 bi, certo? Mais ou menos.

DE fato importamos uma poupança de US$117 bi, porém apenas absorvemos US$52 bi destes 117 bi. O restante desta poupança farta que recebemos do exterior foi reinvestida no EXTERIOR. O fato é que a oferta de poupança externa que temos é maior do que conseguimos absorver aqui.

O BC foi o principal re-exportador de poupança importada. Ao comprar dólares no mercado para sustentar sua cotação,  ele gera um excesso de caixa em US$ que é investido lá fora em títulos do governo americano que rendem 1% aa. Se o BC emprestasse estes dólares para empresas lá fora investirem no Brasil ou para empresas brasileiras investirem mais no Brasil, os US$ 117bi que recebemos do exterior aumentariam ainda mais, o que forçaria o BC a acumular mais reservar. O que determina a quantidade de dinheiro do exterior que de fato usamos aqui é o deficit externo e não o fluxo de investimentos vindo do exterior. No agregado é assim que funciona.

Mais ou menos US$ 21 bi desta poupança que importamos do exterior foi de fato reexportada por empresas brasileiras  que investiram tal montante em suas subsidiarias no exterior. Isto mesmo, como tais empresas não acham investimentos aqui tão lucrativos, elas preferiram pegar seus R$ que estavam em seu caixa aqui e mandaram para fora para investir lá! São as multinacionais brasileiras, como Gerdau, Petrobrás, JBS, entre outras. Outros US$ 58 bi foram reexportados para fora pelo BC, para financiar os déficits públicos americano e europeu. Os dólares que são acumulados pelo BC em sua compra de divisas no mercado de câmbio são investidos em papéis que financiam os déficits públicos europeu e americano.

O quadro abaixo retirado do site de nosso BC mostra estes dados:

Os números aos quais me refiro no texto estão marcados aí.

Logo, o que define a quantidade de poupança externa que de fato absorvemos aqui, e que portanto não é reexportada, é o déficit externo. Quanto maior o déficit, mais poupança externa estamos absorvendo. Esta poupança é importada de diversas formas: como investimento diretos de empresas estrangeiras, empréstimos tomados junto a bancos e empresas internacionais, investimentos em títulos e ações no país, etc.

Resumindo:

1. Destes US$ 116 bi que entraram aqui, apenas 52 bi foram de fato empregados em suprir a deficiência entre poupança e investimento que temos. Ou seja, nossa renda precisa ser complementada por US$ 52Bi que vêm de fora para atender nossas necessidade de gastos com poupança e investimento.

2. Estes US$ 52 bi representam aproximadamente 2% do nosso PIB, ou aproximadamente 10% do total de  investimento real feitos no Brasil por empresas nacionais, estrangeiras e governos.

3. Se o fluxo que vier do exterior for superior a este montante, nós não gastaremos esta grana aqui, mas sim a reexportaremos para o exterior.

E a conclusão é simples:

Para aumentar o Investimento, sem reduzir o consumo,  e dada as restrições de mão de obra, de capacidade instalada e, principalmente, de infraestrutura,  que limitam que nossa renda e produto cresçam a 3,5%aa, precisamos importar mais do exterior. Importar mais bens de capital, isto é, aumentar nosso déficit externo. Temos que exportar menos. E focar nossa produção para atender nossa demanda interna. O déficit externo assim criado seria financiado pela farta oferta de recursos que temos hoje, atraídos pelos retornos superiores que são obtidos aqui quando comparados com os que os estrangeiros conseguem lá fora. Isto um dia vai mudar. Precisamos aproveitar esta janela de oportunidade.

Com um déficit externo maior e com uma oferta abundante de capitais externos, importaríamos uma poupança que de fato seria reinvestida aqui.

Se reduzirmos o déficit externo e não aumentarmos nossa poupança interna, isto é, se NÃO reduzirmos nosso consumo, o nosso investimento PRODUTIVO não sobe. Trata-se de uma igualdade matemática e contábil. As pessoas podem xingar, bater, gritar, reclamar, teorizar, mas é assim que funciona na realidade comunista, capitalista, socialista, liberal, neo liberal, ortodoxa, heterodoxa, o que for!

Quem sabe com as taxas de juros menores os empresários vão aumentar seus investimentos, levando-os para 22% do PIB. Como nosso consumo não deve cair neste cenário de juros baixos, nosso déficit externo neste cenário iria para 4% do PIB e aí absorveríamos 100% da poupança externa que nos é oferecida e hoje parcialmente rejeitada.

Para que os empresários invistam mais, além de juros menores, precisamos de menos impostos,  para que o retorno de seus investimentos aumentem, o que os motivaria a investir mais. O que gera mais investimentos são retornos mais atraentes para aqueles que investem, ou seja, a expectativa de mais lucros para os empresários que investem. Não é patriotismo. O que excita o espírito animal dos empresários é a possibilidade de um retorno maior nos seus investimentos.

Outra forma de aumentar o retorno dos empresários em seus novos investimentos é através da redução do custo dos bens de capital, isto é,  reduzir o custo do investimento. Como há um excedente produtivo nas indústrias que produzem bens de capital na Europa, nos EUA e até mesmo na China, temos uma oportunidade única de importarmos bens de capital a preços competitivos, o que motivaria mais investimentos na nossa economia.  Neste caso, um dólar mais barato aumentaria o volume de investimentos no país, na medida em que isto reduziria o custo do maquinário e da tecnologia importados, aumentando o retorno do investimento para os nossos empresários. Este dólar mais fraco aumentaria o déficit em nossas contas externas o que aumentaria a absorção da poupança externa que temos hoje em excesso e desperdiçada.

Sei que isto não é intuitivo, mas é assim que funciona.

PS: peço mais uma vez desculpa aos economistas pelas várias imprecisões de linguagem e de conceitos, porém achei melhor cometer este enorme pecado em favor de tornar os conceitos mais simples para os leigos, como eu. Peço aos alunos de economia que perdoem as minhas aproximações e simplificações,  porém a didática requer as vezes tais simplificações e imprecisões conceituais.

Para quem quiser se familiarizar com os conceitos da contabilidade nacional, veja:

http://www.icad.puc-rio.br/cfeijo/pdf/capitulo_2.pdf

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